Apesar das campanhas de castração cada vez mais frequentes e divulgadas, tem ainda muita gente que é contra castrar seus animais de estimação, no caso, cães e gatos. Argumentos contra são vários, mas ou são fruto da desinformação ou da humanização dos animais (também é falta de conhecimento da natureza dos animais).
Vou colocar aqui alguns desses argumentos e explicar onde estão "furados".
1) Coitados! Deixe eles sentirem o gosto da boa transa, eles vão ficar tristes ou infelizes com a falta de tesão.
Resposta: os animais não têm "tesão" do mesmo modo que nós humanos. Sentem, sim, necessidade imperiosa de cruzar caso não sejam castrados, mas o fenômeno é função única e exclusiva dos hormônios. Os humanos, mesmo sem quantidade suficiente de hormônios para uma ereção ou lubrificação, podem imaginar uma situação sexual e "sentir tesão" por antecipação. Caso não tenha condições de satisfazer o desejo, sentem-se frustrados e infelizes. Animais, ao contrário, não imaginam, não antecipam mentalmente uma cópula. Na verdade, os machos reagem basicamente aos odores do sexo oposto quando a produção hormonal está satisfatória e, no caso de fêmeas, quando entram em cio. Uma fêmea fora do cio não desperta interesse algum nos machos, e fêmeas não aceitam copular fora do período fértil. Assim, se não houver produção hormonal, eles simplesmente desconhecem as práticas sexuais, e não se sentem menos felizes por isso.
2) Você já se imaginou sem as suas bolinhas?! quem gostaria de ter suas bolas extirpadas?! Isso é crueldade, mutilação!
Resposta: a mutilação (não deixa de ser...), apesar dessa definição, é extremamente útil para o próprio animal e também para o seu dono. O animal não castrado sente necessidade imperiosa de cruzar. Então, vai seguir todos os rituais de acasalamento, e tentar encontrar um par para realizar o coito. No caso de machos (e se for gato, as fêmeas também) vão urinar por todo o canto para demarcar o território, vai uivar, latir e ganir (ou miar e "cantar") chamando parceiros. No caso de gatos, poderão ainda danificar móveis, tapetes e camas dos donos ou dos vizinhos com arranhões e urina. Todo esse ritual costuma irritar profundamente os humanos, principalmente os vizinhos do dono do animal que podem criar problemas de convivência, ou até mesmo arquitetar assassinato do seu animalzinho. E animais tentarão escapar, para buscar parceiros nas ruas, com consequências muitas vezes trágicas: eles podem ser atropelados, maltratados ou assassinados, machos podem se machucar na luta com outros pela disputa de uma fêmea; podem se envenenar ou adquirir doenças... Já um animal castrado não tem interesse em cruzar, então ficam impassíveis mesmo na presença de outro animal fértil, não realiza nenhum ritual irritante, nem tentará escapar a todo custo, assegurando-se muito maior segurança para si próprio. No caso específico de machos, a extração dos testículos evita também o aparecimento de câncer de próstata, o que permite um melhor prognóstico para a vida desse macho. Estatísticas comprovam que animais castrados e confinados vivem muito mais tempo e muito mais saudáveis. E isso é amor, não crueldade.
3) Deixa elas sentirem-se plenas tendo as suas crias, elas precisam sentir o gosto de serem mães.
Resposta: as fêmeas são mães exemplares. A sua dedicação à cria é digna de admiração humana: nunca se viu uma cadela ou gata jogar seu rebento na lagoa ou lata de lixo. Só que elas são mães dedicadas não por que elas amam a sua cria, mas é por que a natureza lhes dotou de instinto para cuidar dos seus rebentos até que eles possam por si mesmos buscar o seu alimento. Depois de uns 2,5 meses, quase nenhuma fêmea continua cuidando dos filhotes; ao contrário, muitas vezes elas rejeitam o assédio, às vezes até ferozmente. Isso porque o instinto maternal das fêmeas também é governado pelos hormônios, próprios da lactante. Se uma parturiente não tem hormônios suficientes, ela não saberá cuidar dos filhotes. O que significa que, se não der cria, ela não saberá o que é ser mãe. Então, uma fêmea castrada não se sentirá infeliz por não ser mãe, pois jamais experimentará a produção desses hormônios. E relativamente à crendice popular de que ela tem que ter pelo menos uma cria antes de ser castrada, esclareço que essa produção hormonal predispõe as fêmeas a desenvolver câncer de mama e ou de aparelho reprodutivo, ou ainda, uma doença infecciosa no útero chamada piometra. Impedir que elas venham a produzir esses hormônios é evitar o aparecimento dessas doenças extremamente dolorosas e fatais. E, ainda esclarecendo, a ingestão de anticoncepcionais orais ou injetáveis aumenta e muito as chances de desenvolverem câncer, há fêmeas que com apenas uma dose já contraíram câncer de mama!
4) Se todos castrassem os seus animais, logo não haveria mais animais de estimação, ou eles seriam muito caros para adquirir. Você quer colocá-los na lista de animais em extinção?!
Resposta: Antes isso fosse verdade... Veja, "se todos castrassem"; mas a realidade atual é que existem no Brasil cerca de 30 milhões de cães e 14 milhões de gatos COM DONO (dado: ANFAL Pet, relatório 2007), sendo desconhecida a população dos animais sem dono. Desse total com dono, uma parcela significativa está sob guarda de pessoas que moram em zonas com difícil ou nenhum acesso aos serviços veterinários, ou em condições econômicas que impedem que se dê qualidade de vida adequada aos seus pets. Um estudo da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo ainda revela que a quantidade de "animais de rua" é inversamente proporcional aos habitantes humanos de um município, isto é, quanto menor a cidade (e portanto menos guarnecida de serviços públicos) maior é a quantidade de animais de rua
per capita. E esses animais não são castrados, pois ninguém cuida da sua saúde, nem de nada. Se, pelo menos os animais com dono fossem castrados, o controle dos animais sem dono ficaria um pouco mais fácil, pois ninguém mais iria abandonar os filhotes indesejados na rua na calada da noite. O crescimento da população do animais sem dono tem exatamente essa origem: como se não bastassem as crias que já nascem nas ruas, os donos que não castram as fêmeas, por não conseguirem doar os filhotes nascidos, abandonam-nos nos parques, nas ruas, nas rodovias... quando não tentam matá-los por afogamento, asfixia, atropelamento. E ainda por cima tem gente que abandona os seus pets já adultos! Mas, os animais são fortes! muitos deles conseguem sobreviver a esse ato de verdadeira crueldade, e se tornam adultos e... se multiplicam.
5) É contra a natureza. Deus dotou todos os mamíferos com função reprodutiva. Quem é você para contrariar esse desígnio?
Resposta: essa é a questão mais difícil, pois aborda a questão de fé. E fé não aceita argumentos... Mas vamos lá. Os animais de estimação nem sempre foram domésticos. Houve um dia, numa época remota, em que os humanos seduziram uns animaizinhos selvagens para serem seus amigos e viverem dentro de suas casas. Houve um longo período de adaptação até que aos poucos eles passaram a fazer parte da família humana. Não foram eles que pediram para serem aceitos, nós é que seduzimo-los. E nós, humanos, temos o que nenhum outro mamífero tem: a inteligência, o conhecimento do passado e antevisão do futuro, o raciocínio, a imaginação, a intencionalidade. E como sabiamente disse Saint-Exupéry, somos responsáveis pelos que nós cativamos. Hoje, nossos pets dependem de nós para tudo, apesar de que animais de rua possam sobreviver sem dono. Se adquirimos um pet, seja comprado seja doado, nós nos tornamos responsáveis pelo seu bem-estar tanto físico quanto psicológico e emocional. Isso inclui, não somente comida e água, mas carinho, cuidados com a sua saúde e com a sua segurança. É amplamente conhecido no meio veterinário que animais não castrados e não confinados vivem bem menos e sujeitos a várias doenças fatais como câncer e piometra, além dos perigos de morte ou invalidez por atropelamentos, envenenamentos, maus tratos, brigas e infectação por doenças várias que, se não tratadas rapidamente podem ser também fatais. Será que evitar essas desgraças é ir contra os desígnios de Deus? E, para piorar, animais vagando pelas ruas são alvo de caçada do pessoal dos Centros de Controle de Zoonoses - CCZ's - que ao capturar esses animais vai levá-los à "prisão municipal" onde, após um período de alguns dias, são mortos em massa. (Com exceção do Estado de São Paulo que promulgou a lei Feliciano proibindo o massacre). Não seria essa chacina ainda pior do que castração, que evita crias indesejadas e ainda melhora a expectativa de vida e qualidade da mesma para os seus pets? Seria desígnio divino matar intencionalmente os nascidos ao invés de evitar o seu nascimento? Castração é ato de amor para com o seu pet e seus descendentes indesejados. Por que amor seria contra a natureza ou Deus?...