Como disse num post anterior, sou extremamente "mão-de-vaca", odeio desperdícios. Apesar de meus conhecimentos na culinária serem menos que "quase-nada", gosto de inventar algumas coisinhas para evitar ter de jogar fora o que costuma ir pra lata de lixo. Assim, economizo para mim e espero ajudar um pouco a natureza também.
Uma dessas invenções (que não deve ser novidade para ninguém...) é o caldo de legumes que sempre faço pois uso muitos legumes e hortaliças. Simplesmente junto todas as cascas (exceção é cebola e alho... essas cascas já não tem nenhum valor nutritivo), talos e folhas não aproveitados, e cozinho na água (cerca de 5 a 6 vezes o volume dos vegetais) e pouco sal (ca. 1,5 colheres de café) numa panela de pressão, por no mínimo 20 minutos em fogo baixo depois que ferve. Depois bato tudo no liquidificador e coo o líquido que, se não é usado na hora, vai para o congelador em potes de margarina (outra economia, rs). O que sobra na peneira acaba indo pro lixo mesmo, mas então, o seu volume é bem mais reduzido, e é quase só celulose. (Se morasse numa casa com quintal, iria para lá como adubo, como faz miha mãe). Na minha geladeira, tenho um recipiente onde vou guardando essas sobras de vegetais, e a cada 3 dias (é o tempo máximo que estipulei para guardar essas sobras) faço esse caldo que, então, substitui água para cozinhar muitos alimentos, ou servir de base líquida para algum molho ou sopa. E, cada caldo leva uma etiqueta antes de ser congelado para não confundir o sabor e não afetar o visual de um prato na hora de usar. (Não gostaria de ter um brócolis arroxeado devido à presença de beterraba, ou ter o gosto de manjericão "matando" o aroma de alecrim, né)
Outra é "furikake". No Japão, faz-se esse tempero seco para dar sabor ao arroz que lá é sempre cozido sem nada além de água. Eu mantenho esse costume, e acabo usando o meu furikake também no arroz à guiza de um lanche rápido ou almoço, caso tenha arroz de véspera e preguiça de cozinhar sobrando. Mas, devido aos ingredientes, é uma mistura bastante nutritiva. O meu furikake usa as partes não aproveitadas de peixe do mar (nunca fiz isso com peixes de água doce...), sementes de gergelim, "nori" (alga em folha) e algumas folhas de verdura, desidratadas. Eu sempre compro peixes inteiros pois saem bem mais baratos (com exceção de atum e cação, claro, que são peixes enormes - desses, utilizo o seu couro, caso a posta venha com ele). Ao limpar o peixe, separo numa tigela a barrigada e espinhos (com carne entre eles) e base das barbatanas. Só descarto mesmo a cabeça. as escamas e pontas das barbatanas. Coloco esse "resto" de peixe no liquidificador e trituro muito bem (se tiver alecrim fresco, coloco uma quantidade generosa junto; é para diminuir o cheiro durante a fase seguinte). Em uma assadeira de bom tamanho espalho essa pasta numa camada fina, cubro muito bem com papel-alumínio (isso é para manter o forno o mais limpo possível...) com bastante furos feitos com palito para saída de vapor, e asso em forno preaquecido à temperatura moderada a quente (não tenho termômetro, mas deve ser cerca de 200ºC). Quando o peixe se apresentar bastante seco, retiro o papel (a mais ou menos 20 minutos), misturo rapidamente com hashi (famosos palitinhos para comer e cozinhar) para afofar e soltar o peixe do fundo, abaixo a potência para, hm... digamos 170ºC, e continuo assando e mexendo de vez em quando por mais uns 30 minutos ou até que todo peixe fique bem crocante e soltinho. Deixo esfriar bem. Na hora de juntar os ingredientes, torro numa frigideira uma colher rasa de chá (ou um pouco mais, dependendo da quantidade de peixe) de gergelim (preto, mas também dá para misturar partes iguais de sementes pretas e brancas) sem óleo, e em seguida um punhado de folhas já desidratadas (é para deixá-las bem crocantes) também sem óleo. Passo sobre a chama do fogão uma folha de nori, também para ficar bem seca e crocante. Coloco o peixe num recipiente largo e esfarelo os eventuais grumos com uma colher (se encontro algum espinho grande, quebro com a colher ou descarto), esmigalho sobre ele as folhas secas e nori com o dedo, acrescento gergelim torrado e mais ou menos 1/2 colher de chá de sal marinho. Muitas vezes adiciono também um pouco de pimenta calabreza seca, sem as sementes. E, voilà, tenho furikake adaptado à minha moda, rs! Guardo esse tempero numa latinha bem fechada, e o seu prazo de validade é cerca de 6 meses (eu tenho consumido em bem menos tempo que isso, kkk)
As folhas desidratadas são história à parte. Sempre que uso algum vegetal com folha, e conforme o que tenho na dispensa, separo algumas folhas (de aipo, manjericão, rúcula, cenoura, beterraba...) e coloco-as para secar. A operação tem que ser nos dias de bastante sol, sem muita umidade no ar e sem vento forte, embora brisa seja ótima para acelerar o processo. Apesar de morar em apartamento, eu tenho a felicidade de ter uma sacada onde bate bastante sol pela manhã. É onde penduro um cesto de bambu com as folhas, bem separadas entre si, e coberto com tule (o cesto é recolhido todo final de tarde e reposto pela manhã). As folhas demandam um a três dias para ficarem completamente ressequidas, quebradiças. Aí as guardo em latinhas bem fechadas com um saquinho de cal virgem para manter fora a umidade. Uso essas folhas como parte do tempero para muitos pratos, como frango, sopa, peixes... e furikake.
Observação: dá para fazer um excelente furikake com peixe inteiro como cavalinha e sardinha, podendo inclusive usar a sardinha ou manjuba seca (dashijako) disponíveis no mercado. Mas, seja qual for a opção, o peixe tem que ser moído e bem torrado no forno. Também pode-se dispensar o uso de folhas desidratadas, que elas são realmente a minha invenção. O tradicional furikake leva folhas desidratadas de sissô.
E mais uma dica de economia: para aproveitar o calor do forno, costumo sempre assar outra coisa junto com o peixe. Às vezes é o próprio filé do peixe que rendeu o furikake, ou são batatas inteiras (embrulhadas uma a uma em papel alumínio) que depois vou rechear ou fazer purê. Só não dá para assar alimentos que não possam ser cobertos e ou não podem absorver o cheiro do peixe, como pães e doces. (A propósito, espero que sua casa tenha boa ventilação, pois o peixe costuma cheirar forte!)
Última dica: o papel alumínio é material reciclável! Se onde vc mora tem coleta de lixo seco (recicláveis), limpe bem o filme usado e descarte junto com latinhas de cerveja e outros objetos de metal. Ah! e lembre-se que recipientes de marmitex, caixinhas de Tetrapac e bandejas de comida pronta também são recicláveis. Lave-os todos bem, assim como as garrafas de refrigerantes e latas de conservas. Essa limpeza é muito necessária para evitar atrair os vetores (insetos e roedores) nos centros de triagem. Se não tem coleta da prefeitura, entregue os recicláveis nos muitos postos de coleta que há em todas as cidades. Vamos ajudar a natureza, e também a sociedade!